A NUDEZ DO IMPÉRIO

A conferência de imprensa de Trump e Cª na tarde de sábado dia 3 de janeiro é talvez o melhor espelho da atual Administração estadunidense.

A linguagem corporal de Trump, Hegeseth, Rubio é absolutamente clara quanto ao que lhes vai na alma.  Estavam ali ao pé do microfone para de forma cruel explicar a agressão militar para raptar Nicolas Maduro, Presidente da Venezuela. Como num filme hardcore, o argumento era o mesmo de princípio ao fim da conferência. O plano era cristalino, Trump travestido de Calígula, não precisava de argumentos, salvo a velha lengalenga de que os venezuelanos tinham roubado os EUA e agora iam pagar porque iriam controlar aquele país. A outra justificação que ninguém acredita é a de que Maduro espalhava droga, homicídios e violações nos EUA. Porém, garantiram que doravante os venezuelanos não voltariam roubar os EUA e irão ter de lhes pagar o que irão fazer para enriquecer a população venezuelana.

Garantiram a cada trecho que são o país mais poderoso, com as melhores armas e que todo o hemisfério sul é zona dos EUA e ainda os que se colocam fora desta opção suceder-lhes-á o mesmo que a Maduro, desde logo Cuba como referiu Marco Rubio, refugiado cubano.

Numa conferência de imprensa dirigida pelo dedo de Trump com respostas antes das perguntas concluírem, tudo ficou às claras – a vida é um grande negócio, disse o novo Calígula.

Este é o novo imperador do império ocidental a quem os súbditos europeus se atropelam para lhe cair na graça, havendo até quem o considere, com muito afeto, tratando-o como paizinho, como o caixeiro-viajante Mark Rutte.

Trump ameaçou tudo e todos, sobretudo as potências que lhe podem fazer frente. Quis passar a ideia da sua força, precisamente no momento do seu declínio acentuado.

A droga campeia nos EUA porque a vida naquele país para uma grande parte da população é um inferno e os sem abrigo crescem em todos os Estados. A pobreza espalha-se. Os massacres no país continuam, apesar dos anúncios de tranquilidade de Trump.

Trump e os multibilionários que constituem o seu governo vivem numa bolha que é negada pela realidade.

A ação armada contra a Venezuela para raptar o Presidente Maduro parece ser o início de um processo de ações violentas contra todos os países que se não subjuguem às ordens do império.

Cabe aos países amantes da liberdade e da cooperação internacional, aos povos, às instituições internacionais, desde logo à ONU, não se submeterem à velha ordem canhoneira para espoliar os países e os povos dos seus recursos naturais porque como diz Trump a vida é um grande negócio. Mas a vida pode ser a mais bela epopeia se ela for vivida entre todos com os melhores sentimentos de que os humanos são portadores.

PIRATARIA INTERNACIONAL

O que melhor define a conduta internacional de Donald Trump é o cerco, o ataque e a captura do Chefe de Estado venezuelano, Nicolas Maduro, na madrugada de sábado dia 3 de janeiro.

Trata-se, como é óbvio, de uma ação de pura pirataria da potência dominante na região, com base no monumental embuste da proteção do tráfico de droga do país com as maiores reservas de petróleo do mundo.

Tal como no Iraque a mentira do tamanho do mundo foi a existência de armas de destruição massiva, aqui é a da exportação de droga.

Os EUA são o país com um total de trinta e quatro intervenções militares em todo o mundo, 752 bases militares espalhadas pelo planeta, 168 044 militares em vários países; um país que só reconhece os seus interesses como pertencendo ao núcleo dos seus interesses vitais.

O país que comanda o destino da NATO e trata os aliados como sendo seus vassalos, designadamente no caso da Gronelândia.

Choca, pois, a posição da Alta Representante da UE para a política externa que justifica a conduta de Trump com a falta de “legitimação democrática” de Maduro, como, se um qualquer país tivesse algum mandato respaldado no direito internacional para atacar militarmente outro país pertencendo à comunidade internacional, como se kallas defendesse uma intervenção militar na Arábia Saudita para a realização de eleições.

O “mandato” da intervenção militar por ordem de Trump que Kallas apoia, como o faz em relação à ocupação de Gaza e Cisjordânia por Israel, é o da força brutal, restabelecendo o domínio das nações com base na exibição da bandeira imperial.

Trump prossegue a política de agressão de Kennedy, Johnson, Nixon na Indochina, de Clinton na Jugoslávia, de George W. Bush no Iraque, de Obama no Médio Oriente, de Bush no Afeganistão.

O mundo está frente a uma bifurcação: ou a lei da selva ou a multilateralidade com o respeito de todos por todos.

A ação armada dos EUA na Venezuela é um sinal do caminho que os EUA/NATO/UE pretendem percorrer.

Que os países latino americanos se unam para encontrar uma solução pacífica para sarar a crise aberta com a agressão militar dos EUA. E que todos a apoiem.

As mulheres e os homens deste mundo não podem continuar a virar a cara para o lado, fingindo que o que se passa no mundo não lhes diz respeito. Fazemos a História que nos faz. Que a indiferença não passe à frente dos sentimentos da empatia e da solidariedade.

ALFAIATE DAS ESQUERDAS, PRECISA-SE!

A ideia central do neoliberalismo de empobrecer a população para depois a “enriquecer” tem muito de ideais que estiveram presentes ao longo dos séculos. A mais extraordinária a este respeito é a das religiões que pregam a felicidade depois da morte, inatingível neste vale de lágrimas.

Se a conjugarmos esta centralidade com a meritocracia temos a síntese perfeita: os que querem, vencem, como diz Montenegro, a propósito de Cristiano Ronaldo, como se uma andorinha fizesse a primavera. São milhões os pobres e só meia dúzia passam no crivo. Esta é a justificação simples para meter na cabeça das pessoas. Se não vences é porque não queres. E todos os dias o martelo martela.

Assim se justificam os ataques aos direitos alcançados porque é preciso que a sociedade se mexa e que dê aos multibilionários mais biliões para distribuírem as migalhas que tombam da pirâmide. Desde logo fatiando as sociedades até ao indivíduo isolado, bem sabendo que esta é a melhor maneira de prosseguir o empobrecimento da maioria e o enriquecimento de uma ínfima minoria.

Esta máquina de empobrecer está em marcha anunciando paradoxalmente que esta é a maneira de enriquecer. E depois dos falhanços do socialismo soviético, da social-democracia e das próprias democracias cristãs, neste chão de desesperança e de competição brutal germina esta ideologia requentada, servida com nova roupagem. Agora os amortecedores sociais estão a mais, e anunciam a transformação dos indivíduos em empreendedores, e os que não vencem só se podem queixar de si próprios.

Neste contexto as várias esquerdas enfrentam desafios hercúleos e a partir do enfraquecimento do chão onde o movimento sindical, operário, democrático e cultural devastado pelos ataques constantes dos governos (pacote laboral, entre tantos) e pelo frenesim do extremo individualismo e egoísmo.

Muita da velha solidariedade foi arredada. Cada um olha para si. Os outros estão distantes e parece que nada se ganha com rebeldia. Há uma nova formatação. O importante é vencer, mesmo que não se vença.

Ora, neste mundo tão inóspito de solidariedade e de esperança as primeiras correntes políticas a serem atacadas são as esquerdas nas suas identidades na medida em que o seu núcleo histórico e atual está, em todas elas, na luta e na solidariedade.

Se cada corrente crescer à custa das outras o que sucede é o enfraquecimento global de toda a esquerda porque as organizações existentes preenchem espaços de certa forma impreenchíveis pelas outras. Parece ter acabado o tempo de quem chegar primeiro ganhar o estatuto de ser representante de si e dos outros. E não é tempo de os novos pretenderem substituir os que já cá estão há mais de cem anos. Nos Descobrimentos erguiam-se os padrões e os povos ficavam debaixo da jurisdição da Metrópole colonial.

Assisti ao debate entre Catarina Martins e António Filipe. Consegui descobrir diferenças na questão da invasão da Ucrânia, mas sem serem inultrapassáveis. Jorge Pinto do Livre apresenta mais diferenças em relação a CM e AF, mas passíveis de serem dirimidas. Por que não se reúnem? Estão à espera de quê? Se as três forças tivessem apenas uma candidatura a negociação com os socialistas seria muito diferente. Já não há tempo, mas a vida política não morre em 18 de janeiro de 2026.

Fazer política não é a arte de exaltar as diferenças; me parece ser a arte de encontrar caminhos comuns por muito limitados que sejam. A unidade para vencer batalhas. As diversas esquerdas representam aspirações da maioria da sociedade. Se as esquerdas se aliarem, a ínfima minoria dos mandantes neoliberais ficará ainda mais à vista.

A importância da unidade sindical na greve geral foi decisiva. O trabalho que costurou o impossível, pode ser o caminho para um alfaiate das esquerdas costurar um novo fato. O sectarismo é uma doença que revela senilidade face aos desafios. O tempo que vivemos precisa de uma renovação à esquerda e fazer com que a força agora mais limitada das esquerdas se amplie com propósitos e ações de unidade. Só assim voltarão à importância de que precisam para os combates por uma alternativa ao governo das direitas, por uma vida digna para todos e por um mundo de paz.

AS DEMOCRACIAS LIBERAIS E A(S) GUERRA(S)

Na Antiguidade, em Atenas, houve largos períodos de vida democrática entre os cidadãos, isto é, os ricos. Os metecos, as mulheres, os escravos e eupátridas estavam excluídos da participação da vida social.

A democrática aristocracia governante passava a vida em guerras a rapinar os povos vizinhos ou longínquos para aumentar a sua força e riqueza.

Sintetizando, desde então, até ao advento do liberalismo as guerras dominaram o panorama mundial.

A democracia liberal não veio espalhar a paz na Europa e no mundo. As burguesias europeias emergentes da revolução liberal, muitas vezes, entraram em guerras entre si e para subjugar os povos das colónias.

Quando no Ocidente se pretende fazer passar a ideia de que a ordem liberal se funda na difusão de valores e da paz, estamos diante de uma enorme manipulação da História.

O exemplo dos mais paradigmáticos desta manipulação grosseira é a dos Estados Unidos da América que se fundaram com imigrantes europeus forçados ou fugitivos (alguns condenados, outros perseguidos) que liquidaram praticamente os povos autóctones.

A classe dirigente dos EUA é de origem europeia. Dominou o país à custa de uma espécie de genocídio dos nativos dos territórios que hoje integram os EUA. E ainda da guerra de anexação de grande parte do México.

Os EUA invadiram o Vietname, o Laos e o Camboja. São mais de 5 milhões de mortos e o início da guerra química com o agente laranja lançado pelo exército estadunidense nas florestas tropicais daqueles países com todos os horrores subsequentes na Natureza e nas populações. Deve acrescentar-se ainda os bombardeamentos atómicos da Hiroshima e Nagasaki no Japão. As intervenções estadunidenses ultrapassam as três dezenas, nomeadamente são trinta e cinco até este dia.

 Foi a democracia francesa com o General De Gaulle como Presidente que tentou manter a Argélia como colónia francesa e durante oito anos (1954 a 1962) anos a guerra colonial na Argélia causou cerca de um milhão de mortos argelinos e vinte e sete mil e quinhentos soldados franceses.

A não menos democrática Inglaterra tentou sufocar a luta libertadora dos povos da Índia, Birmânia, Afeganistão, Chipre, Quénia e Tanzânia com a guerra e o cortejo de horrores e mortos.

Em geral as democracias da NATO não se incomodaram muito com as guerras coloniais portuguesas na Guiné-Bissau, em Moçambique e em Angola.

O Ocidente tentou e tenta ainda passar a ideia de que o colonialismo foi um bem para os povos do Sul e que as guerras que desencadeou foram para os civilizar e até para lhes dar um Deus que se não o aceitassem acabavam nas fogueiras da Inquisição.

Os regimes liberais deram seguimento, nas relações internacionais, ao velho princípio de impor regras a partir das posições dos mais fortes. As burguesias triunfantes do século XIX não abriram no plano mundial uma nova era de paz e de cooperação, antes substituíram no comando das nações as velhas aristocracias imperiais, mantendo o domínio dos povos.  

Em 2003, a invasão do Iraque pelos EUA com o apoio da NATO e particularmente de Tony Blair, de Aznar e de Durão Barroso demonstra à saciedade a manipulação de que as democracias fazem guerras limpas e justas.

A narrativa ocidental continuou a mesma linha manipuladora e rapace não hesitando com base num monumental embuste provocar por via da guerra a morte de cerca de meio milhão de iraquianos e lançar todo o Médio-Oriente num caos do qual não saiu até hoje, tendo-se agravado com o apoio ao Estado mais fora da lei do mundo e ao seu dirigente com laivos de carniceiro, Netanyahu.

Ao apontar o dedo ao imperialismo ocidental, não deixamos de ter presente a doutrina da URSS que considerava que na sua área de influência se fosse preciso para defender o “socialismo” mandavam os tanques, espezinhando de modo cruel o ideal libertador dos povos que deveria ser o apanágio do socialismo.

É preciso pensar e não encarneirar. Pensar é ver as coisas como elas são na realidade. Na verdade, basta olhar como o Ocidente encara a guerra resultante da invasão da Ucrânia com a guerra de ocupação de Gaza para se compreender a terrível duplicidade de critérios.

A Europa enfrenta o perigo de uma guerra no seu território e tal sucede porque na UE a política de submissão aos EUA (independentemente de quem administra) é de tal ordem que a torna cega, descurando que este confronto com a Rússia, se levado até às últimas consequências, se travará em solo europeu num braseiro nuclear em que os sobreviventes provavelmente invejarão a sorte dos mortos. Do outro lado do Atlântico, os EUA seguirão bem longe a loucura europeia, esfregando as mãos por se desfazer dos europeus míopes.

Os valores que os povos, os países e as nações prezam – paz e cooperação não encontram eco na milionária burocracia europeia. Ali campeia a defesa dos privilégios. Os seus valores estão na defesa dos valores da alta finança.

O liberalismo trouxe muito de positivo face ao feudalismo, mas no seu bojo já trazia a exploração dos povos. A sua audácia revolucionária claudicou para não perder os privilégios da nova classe emergente, a burguesia. Os valores são os mercantis, aliás por todo o lugar do planeta se erguem altares ao novo Deus, o mercado, o bem supremo do liberalismo agora com a roupagem de neoliberalismo. O resto é treta.

O HOMO NEOLIBERALIS – ALGUNS TRAÇOS   

O capitalismo na sua fase atual deu uma impressionante guinada no sentido de refundar um novo consenso social com a financeirização da economia e colocando a enorme massa dos assalariados e das classes médias num empobrecimento acelerado.

À falta de melhor qualificativo tem sido designada esta vaga de fundo como neoliberal exatamente em oposição ao liberalismo revolucionário da burguesia emergente do final do século XXVIII e de todo o século XIX.

As dificuldades de competição do sistema visível nos anos 70 do século passado levou as políticas de Margret Tatcher e Reagan ao abandono das políticas sociais do capitalismo para dar todo o poder aos bilionários, criando as condições para cavar um fosso brutal entre as elites financeiras e capitalistas e o resto da população.

Uma das suas características é a natureza impiedosa dos de cima para com todos os outros. Veja-se como o banqueiro do BPI se referiu aos trabalhadores que não puxam a carroça, como se fossem burros, para justificar os despedimentos selvagens da proposta da nova legislação laboral do governo.

Concomitantemente é preciso apagar a memória, esquecer nomeadamente a crise provocada pelo setor financeiro com a derrocada de bancos, a qual foi paga pelos cidadãos a quem os Estados se apropriaram dos rendimentos provenientes dos vencimentos e pensões. Passos Coelhas e Portas e Montenegro foram para além da troica exibindo a sua face de algozes sociais. A novas mudanças ao Código de Trabalho mostram com clareza a natureza impiedosa deste governo, impondo designadamente trabalhar duas horas sem retribuição.

A direita, o centro e a social-democracia deixaram cair as características do Estado Social para entregarem o poder aos grandes grupos económicos, designadamente aos dominantes do setor financeiro. O poder político passou para as mãos do poder económico, nuns casos diretamente, noutros por procuração. Veja-se o caso dos EUA, um governo de plutocratas.

Não existe, segundo Tatcher sociedade, apenas indivíduos. A sociedade é um amontoado de “eus”. O que não vence é porque não merece o reino dos que têm tudo. Quem não vencer nunca passará de uma espécie de um Zé Ninguém.  Se nem a Raspadinha o salvou, resigne-se. Ninguém o irá ajudar. Desista.  Acabou o tempo das solidariedades, agora é o dos empreendedores e dos gestores.

Cada um deve tornar-se num empreendedor de si próprio. Enriquecer o patrão para ser um bom colaborador e com sorte viver melhor e vir a ser patrão. Eis o novo Credo/Código neoliberal.

Na verdade, também está bem presente é a ideia da resignação, a acomodação, a perda de esperança na possibilidade de mudar a vida, daí o ataque aos sindicatos. O trabalhador deve ficar só face ao empregador.

As pessoas baixam a cabeça e agem como se estivessem anestesiadas, sem rumo, não acreditando que podem transformar a vida e escolher outro caminho. Já Éttiene de La Boétie escrevia sobre a servidão voluntária nos finais do século XVI.

O homo neoliberalis está sempre em competição, desde que se levanta até que deita. Não admite outra coisa que não seja o êxito. Vai em busca de quem possa fazê-lo vencer. Tem excelentes coaches que o adestram na arte de vencer. São os seus novos sacerdotes. No altar construído em cima da pobreza está o novo Deus, o Lucro.

Mas esta verdade também é feita de outras verdades. Tudo tem o seu tempo. Agora o tempo parece perdido, mas dentro dele vem outro tempo, seguramente.

Há 51 anos em Abril de 1974, no casulo do tempo, as coisas mudaram. Não tem de ser sempre por via de revoluções, mas quando o rio enche a tal ponto que as margens ficam estreitas, elas acontecem. Tudo vai depender da loucura dos plutocratas e do poder dos cidadãos. Os plutocratas são tão ínfimos que bastava uma leve tomada de consciência desse poder. Veremos.

GIVE A PEACE CHANCE, como cantava John Lennon

Há quase quatro anos que o Ocidente (EUA/NATO/UE) decretou que a Rússia teria de ser derrotada na Ucrânia, demorasse o tempo que demorasse o apoio a Zelenski.

Legiões de figuras de todo o tipo diariamente contavam maravilhas acerca das capacidades ocidentais e das miseráveis condições dos russos. Salvo meia dúzia de honrosas exceções todos afinavam pelo mesmo livro de pensamento único – a Rússia vai perder a guerra.

Há sentimentos na vida que cegam como o da arrogância que tomou conta desta tríade ocidental. Relembre-se o caso de Ursula von der Leyen que no seu destemperado ódio à Rússia chegou a afirmar que a Rússia, com as sanções, nem de frigoríficos iria dispor porque precisava dos chipes para armamento. Jornalistas houve que noticiaram que as espingardas da Rússia eram da 1ª Guerra Mundial e que os soldados nem ração tinham, e os cancros de Putin eram a rodos…

Houve até um Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Dr. João Cravinho, que anunciou que Putin se fosse de férias ao Algarve seria preso. Stoltenberg, o então Secretário-Geral da NATO, ficou famoso por anunciar que apoiaria a Ucrânia o tempo que fosse preciso. O novo, capacho de Trump, ainda andará a agradecer ao imperador de Largo-a-Mar na Florida o apoio à Ucrânia que se está a ver nos famosos 28 pontos.

Zelenski, o Churchil ucraniano, rodeado de corruptos por todos os lados, o homem que mais armamento pediu (percebe-se melhor agora o seu papel com tantos ministros fugidos) já manifestou a sua vontade de negociar com os EUA o tal plano de Anchorage entre UEA e Rússia.

Do lado europeu anda tudo com a cabeça à roda. Os principais dirigentes da UE entraram em choque com a realidade circundante, designadamente a Leste, e entre si.

A decisão política face à invasão da Rússia da Ucrânia de apresentar ao mundo a impossibilidade da Rússia vencer, contando para tanto com o apoio dos EUA, revelou uma vez mais a total insignificância de pensamento político-estratégico. Os EUA querem “largar” a Ucrânia porque estão bem dentro do conflito, são eles que que comandam a Ucrânia e perceberam que não têm como travar militarmente a Rússia. Aqui bate o ponto. Em vez de uma humilhante derrota tentam sair por cima, se for possível.

Deve ter-se presente o plano dos EUA já mil vezes divulgado a partir da Rand Corporation, think-tank do Pentágono, de fragmentar a Rússia a partir do conflito militar da Ucrânia, assim definido pelo conselheiro de Segurança da Ucrânia Oleksei Resnikov em 06/01/2023 no TSN Canal 1+1…A OTAN dá as armas e nós o sangue…

Creio que esta afirmação de uma personalidade como Reznikov diz tudo quanto à envolvência dos EUA e à ideia da derrota militar da Rússia. O Ocidente subvalorizou o poderio militar e económico da Rússia e a sua arrogância impediu-o de ver que o mundo mudou e o Sul Global, mesmo que ainda incipiente, é uma realidade, sem falar dos BRICS.

Por outro lado, o “nosso” aliado aplicou-nos um golpe de mestre ao cortar a ligação da UE com a Rússia designadamente a nível de energia, onde assentava o crescimento industrial da Alemanha. Os europeus, se quiserem, têm de comprar a energia aos EUA, muito mais cara, ficando na dependência de alguém cuja coerência é assinalável…

Com este eventual fiasco da UE devemos ter presente o que se está a passar na frente dos nossos olhos.

Os dirigentes da UE sem qualquer mandato para tal e contra a filosofia fundadora da UE cavalgam uma corrida armamentista que gela o sangue. A Alemanha quer avançar para a guerra com a Rússia, na França um chefe militar diz que os franceses têm de assumir a coragem de ir morrer contra a Rússia…mas, há sempre um mas.

A França olha para o rearmamento da Alemanha desconfiada e a Polónia estremece, enquanto na própria UE há quem não esteja pelos ajustes.

A corrida aos armamentos pode ser a tentativa do neoliberalismo reinante na UE de justificar o empobrecimento e a limitação dos valores democráticos fundadores. Ou seja, face à impossibilidade de sair das políticas recessivas onde mergulharam os países, tentam erguer uma cortina de fumo para esconder a política de empobrecimento que vem a caminho com a famigerada ideia de garantir fundos para a guerra, cortando na política social, cultural e ambiental da UE.

Claro que uma política dessa estirpe irá não só a nível interno criar enormes tensões, como a nível dos Estados membros choques entre vários países que não querem ser atrelados ao carro da pobreza, pois esta política provocará ainda maior desigualdade entre eles. A campanha da guerra visa esconder exatamente esta perfídia.

Tenha-se presente que um fulano como Durão Barroso, que devia responder num Tribunal Internacional pelos crimes de guerra contra a Humanidade resultante da monstruosa mentira de que o Iraque tinha armas de destruição massiva, salta agora para os media proclamando que a Rússia vai invadir a Europa, bem sabendo que uma tal afirmação é uma mentira do tamanho de toda a Europa. O homem que perdeu toda a sua credibilidade como líder político, tenta agora na posição de neobanqueiro guindar-se no plano político, jogando com a perda de memória de um dos maiores crimes cometidos contra o direito internacional.

Os principais dirigentes da UE estão metidos num beco aparentemente sem saída. Estão unidos no empobrecimento dos povos, divididos quanto ao modo como fazer, dadas as contradições entre os Estados.

Como a UE é um conjunto de Estados com diferentes políticas de defesa é evidente que os grandes gostariam de unificar forças militares para serem eficazes, mas o problema real é: ao serviço de quem e de quê ?  

A política neoliberal é muito previsivelmente incapaz de conseguir tal desígnio porque ela funda-se na hierarquia do país mais forte que é a Alemanha, o que não é aceite nem pela França, Polónia e até Reino Unido, de fora da UE.

Resta levar à prática uma outra política de paz, desarmamento e cooperação. É preciso desarmar e não de armar. A mais firme e eficaz política de segurança europeia é partir para o desarmamento pan-europeu com a Rússia e os EUA. A Rússia faz parte da Europa e nunca irá sair do continente; os EUA não são europeus, mas pelo seu peso no mundo e face à NATO é benéfica a sua participação numa tal política.

Não há que ter medo – o desafio é desarmar e nunca armar. É preciso diminuir o armamento na Europa conjuntamente com a Rússia, criar um clima normal entre gente normal que quer viver dignamente onde que que viva no continente cuja História exige outra responsabilidade.

A Ucrânia não poderá ser uma ferida a sangrar no continente. Após o conflito é necessário abrir canais de cooperação para reestabelecer medidas de confiança entre os povos envolvidos no conflito. Talvez, porque não, uma Conferência Europeia para a Paz e a Cooperação entre todas as nações. Este é o caminho. Se a guerra terminar é preciso que nunca mais se reacenda, como aconteceu já também acontecera na Jugoslávia.

Creio com todas as forças, que quando os figurões do armamento pedem mais dinheiro para a indústria da morte, é preciso que os povos toquem os sinos a rebate para acordarem as consciências da paz. Em pleno século XXI só a paz é a nossa humanidade e a guerra a nossa bestialidade. A Europa não precisa de mais pilhas de cadáveres, antes necessita de conhecimento, sabedoria, cooperação e sempre as pombas da paz nas mãos dos nossos filhos e netos que da Rússia à Península ibérica, da Escandinávia aos Balcãs, para que se cumpra o sonho de dar uma chance à paz, como cantava John Lennon.

O mistério das vozes búlgaras, de minha mãe e de minha tia

Há uma voz, melhor, vozes. Femininas. Vozes de algodão em rama. Sem arestas. Uma que me adormecia, a de minha mãe.

Outra que me acordou.  Foi há muitos anos. Uma voz que vinha do tear que minha mãe tinha em casa e com ele fazia tapetes. Era a voz de minha tia. 

Eu não sabia explicar o bem-estar que sentia ao ouvi-las. Era como se fosse um afago. Eram vozes magorreiras. Vozes de um amparo. 

Como um sopro de ternura a pairar no ar. Às vezes encontrei vozes assim quando amava. E tudo não passava de um sonho de ternura ao rés da vida.

No mistério das vozes búlgaras voltei ao espanto das vozes que ouvia quando era menino e as mulheres cantavam em casa e nos campos. Raramente eram masculinas, as vozes de encantamento. 

As vozes búlgaras que ouvi na Gulbenkian deixaram-me dúvidas acerca de se nasceram de ouvirem os pássaros cantarem ou se deram origem aos pássaros que cantam.

Se eu fechar os olhos e entrar na mente escura oiço aquelas vozes e não sei se já as tinha ouvido ou se adormeci e pairo no céu que, se existisse, podia ser de vozes de mulheres búlgaras ou de minha mãe e de minha tia.

A voz é a última réstia do que fica do amor. 

É tudo uma questão de coco ou de cócó

A seleção de Roberto Martinez jogou em Dublin enredada num enorme nevoeiro estratégico.

Martinez, vá lá saber-se porquê, deixou que se alimentasse o foco de o multibilionário CR7 atingir mil golos e todos os media compraram a proeza acompanhada em doses industriais da beautiful life de Ronado/Gio e Cª.

Num país dominado por um serventuário basbaquismo e uma assumida incapacidade de crença coletiva é fácil transferir o rol de frustrações e desesperanças para o herói nascido em tosco casebre e que o mundo apresenta ao lado dos mais ricos ou poderosos, ultimamente ao lado do Príncipe herdeiro MBS, o que ordenou, em 2 de outubro de 2018, o assassinato e desaparecimento do jornalista do Washington Post, Jamal Khashoggi.

Até o “nosso” Costa se lembrou, numa ida aos EUA, de entregar ao imperador Trump uma camisola de CR7…assim vai a Lusitânia.

Voltando ao jogo de Dublin, logo se assinalou por tudo quanto era sítio que seria mais uma ocasião para a aproximação aos tais mil. CR7 falou e disse que seria perfeito se o alcançasse até ao fim do mundial.

Repare-se que não há nenhuma competição para ver quem atinge mil golos; sendo exclusivamente para o apuramento do Mundial. Nada mais, não sei se já repararam…

Provavelmente, o distraído Martinez tenha ficado a saber que a competição era para o Mundial quando CR7 foi expulso e de seguida de cima da sua arrogância se pôs a fazer caretas em vez de pedir desculpas ao irlandês.

A confirmação do desnorte e da falta de coco veio de Martinez na conferência de imprensa no final do jogo defendendo Ronaldo e atacando o defesa irlandês.

Ronaldo no dia anterior ao do jogo autoelogiou o seu coco e a sua adaptabilidade, apesar dos 40 anos. Insistiu na ideia de que o seu mérito era o de saber usar o coco. E foi mais longe, se estivesse na Liga inglesa já tinha marcado muito mais golos porque na Arábia Saudita é mais difícil. Talqualmente. Claro que ele, com o coco, tem marcado golos bonitos.  Sabe-se que nesta matéria é bom de tola. Mas para gabarolices também usa o coco.

O que se não sabia é que Martinez viria defender CR7 depois da falta de coco a perder por dois golos e responder aos defesas daquele modo. Afinal a falta de coco é de ambos, dois sem coco, juntinhos…

Há, no entanto, uma coisa boa no meio deste nevoeiro: no Dragão CR7 não jogará; pode ser que libertos da meta dos mil, a seleção marque golos e se apure. É esse o desafio. Mas só se tiver coco, porque para cócó já chega o de Dublin com C7R de soltura.